Tomei posse grávida de cinco meses, em Axixá do Tocantins, no Bico do Papagaio. Foram muitas mudanças ao mesmo tempo: a maternidade que se aproximava, a adaptação a uma nova realidade profissional e os desafios de atuar na Defensoria Pública em uma região com tantas vulnerabilidades. Ali, aprendi que ser defensora ia muito além do conhecimento jurídico; exigia empatia, presença e resiliência.
Três anos depois, titularizei a Defensoria do Júri de Araguaína. No Tribunal do Júri, compreendi que a defesa não se resume a palavras bem articuladas – ela demanda compromisso e, acima de tudo, coragem. Coragem para permanecer ao lado de quem mais precisa, mesmo quando todos os olhares são de julgamento. Coragem para resistir às pressões, aos rótulos e às expectativas.
Quando assumi a presidência da ADPETO, um cargo que não era ocupado por uma mulher há 16 anos, o desafio se renovou. Liderar significava negociar, articular e enfrentar resistências. Significava, também, lidar com questionamentos sobre meu papel de mãe – como se a maternidade e a liderança fossem inconciliáveis. Isso me fez rememorar frases que ouvi desde jovem e que continuaram a me acompanhar ao longo da carreira: que mulheres como eu precisavam escolher entre o sucesso profissional e a maternidade, como se sempre tivéssemos que sacrificar um desses papéis. Como se ainda fosse necessário provar que podemos ocupar espaços estratégicos sem renunciar a outros aspectos da vida.
Entre erros e acertos, sempre me fiz presente na vida das minhas filhas. Nunca faltou amor, carinho ou escuta. Houve dias de cansaço, momentos de dúvida, mas jamais ausência. A maternidade não me afastou da carreira – pelo contrário, me tornou mais forte, mais resiliente e mais consciente do impacto do meu trabalho. Entre prazos, audiências e compromissos institucionais, fui construindo um equilíbrio possível, um caminho real, onde a maternidade e a profissão coexistem, sem que uma precise apagar a outra.
Quis que minhas filhas crescessem sabendo que mulheres não precisam escolher entre realização profissional e vida pessoal. Que é possível ser muitas sem renunciar a si mesma. Minha jornada na Defensoria me ensinou que resistir é mais do que enfrentar desafios – é abrir caminhos. Caminhos para que outras mulheres, defensoras ou não, possam ocupar os espaços que quiserem, sem culpa, sem limitações impostas e sem precisar escolher entre ser e estar. Porque estar presente, em qualquer papel que decidamos exercer, é um direito, não uma concessão.